
Angola celebrou recentemente os 50 anos da sua Independência, tendo como um dos principais símbolos das comemorações o imponente Mausoléu Dr. António Agostinho Neto, em Luanda. A torre de cerca de 120 metros de altura, conhecida popularmente há décadas como “O Foguetão”, continua a ocupar um lugar central na memória colectiva dos angolanos, muito para além do seu valor arquitectónico e histórico.
José Manuel Ferreira recorda-se com nitidez da infância passada nas imediações da obra, quando tinha apenas 12 anos e acompanhava o pai ao estaleiro, onde este trabalhava ao lado de engenheiros soviéticos. Para muitas crianças do musseke, o local era simultaneamente espaço de brincadeira e imaginação, entre areia, vergalhões e o pó do cimento, alimentando a fantasia de que aquele “foguetão” um dia levantaria voo, levando Angola rumo a um futuro de paz e liberdade.
Essas vivências foram mais tarde retratadas pelo escritor Ondjaki, no romance Avó Dezanove e o Segredo do Soviético, obra que evoca a convivência entre angolanos e soviéticos, bem como o olhar inocente das crianças sobre uma construção carregada de simbolismo político. Ao reconhecer-se nas páginas do livro, José Manuel Ferreira afirma que, embora não compreendessem a complexidade da política, as crianças sabiam que ali se erguia algo fundamental para a liberdade do país.
Para toda uma geração, o mausoléu não representa apenas um monumento nacional, mas sim uma memória viva da infância, marcada pelo som das gruas, pelo convívio comunitário e pela esperança de um Angola livre , um legado que permanece, meio século depois da Independência.



